Ao sermos vistas apenas como “perfeccionistas” ou “ansiosas”, perdemos o direito ao suporte adequado e à proteção legal que o diagnóstico de TEA nos assegura. A transição da performance para a autenticidade é, antes de tudo, um ato de justiça com a nossa própria natureza.
Muitas vezes, a vida acadêmica e social exige de nós um esforço que permanece invisível aos olhos dos outros. Para a mulher autista, especialmente no contexto da docência universitária, a trajetória é frequentemente marcada pelo sentimento de operar em uma “frequência diferente”, tentando exaustivamente se ajustar a molduras sociais que nunca foram desenhadas para o seu tamanho. Este artigo propõe uma reflexão sobre o masking — o esforço sobre-humano de camuflar traços neuroatípicos para mimetizar a normalidade — e como o diagnóstico tardio surge não como um rótulo, mas como um instrumento de alforria intelectual e pessoal.
A Ontologia do Masking: Sobrevivência e Camuflagem
O masking, ou camuflagem social, é definido cientificamente como um conjunto de estratégias cognitivas e comportamentais utilizadas para esconder características do Transtorno do Espectro Autista (TEA) com o objetivo de evitar o julgamento, o bullying e garantir a aceitação em grupos sociais. Enquanto o autismo no fenótipo masculino é frequentemente identificado por comportamentos externos, na mulher ele tende a se manifestar internamente como um esforço monumental de adaptação.
Dentre as motivações para a manutenção dessa “máscara”, destacam-se:
- Manutenção da empregabilidade e trânsito institucional.
- Proteção contra a violência simbólica e o capacitismo.
- Atendimento a expectativas familiares e culturais que não compreendem a neurodivergência.
- Minimização de comportamentos lidos como “estranhos” ou “antissociais”.
O Ciclo do Desgaste: Do Radar à Exaustão
A literatura contemporânea, baseada em modelos como os de Hull et al. (2017), descreve o masking como um ciclo exaustivo que compromete a homeostase do sistema nervoso. Para a professora universitária, este ciclo se traduz em etapas rigorosas:
- Antecipação: O ensaio mental exaustivo antes de aulas, reuniões ou eventos sociais.
- Performance: O uso da máscara; a imitação deliberada de comportamentos sociais esperados.
- Hipervigilância: O monitoramento constante de cada palavra e gesto, operando em um estado de alerta ininterrupto.
- Colapso (Burnout): O desligamento do sistema nervoso por sobrecarga sensorial e cognitiva.
- Recuperação: A necessidade imperativa de isolamento e silêncio para que o indivíduo retorne ao seu eixo.
O Diagnóstico como Meio de Libertação
O diagnóstico de TEA — que afeta aproximadamente 1 a cada 36 pessoas conforme dados do CDC (2023) — não deve ser encarado como a descoberta de uma “nova personalidade”, mas como a entrega das “chaves de casa”. No contexto adulto, ele ilumina as sombras do passado e oferece fundamentação científica para um neurodesenvolvimento atípico, que é genético e hereditário.
Reconhecer a prevalência do autismo (cerca de 2,4 milhões de pessoas no Brasil, segundo dados projetados do Censo de 2022) é o primeiro passo para que a inclusão deixe de ser uma exigência de “normalidade” e passe a ser um direito à autenticidade.